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Sobre Mari Novaes

Sou artista, pesquisadora e professora, interessada em desejos compartilhados e cartografias afetivas. Quando me tornei estudante universitária de arte, no ano de 2003, já havia acumulado dez anos de investigação da materialidade cerâmica e outros materiais escultóricos, inserida em cursos de ateliês onde a distinção entre funcionalidade artesanal e poética artística ficava em segundo plano. Nestas formações, a ênfase era conferida à experiência com a argila e outros materiais de forma amplificada, para conhecer seus limites e potencialidades como matérias de expressão. Por isto, o resultado plástico importava menos, desde que constituísse o fim de um processo de aprendizagem e domínio técnico. Assim, quando entrei para o bacharelado de artes plásticas trouxe comigo muito conhecimento técnico e uma relação com o objeto livre das exigências que a Estética impõe. Toda a sorte de objetos que produzi no período anterior, conforme disse anteriormente, serviam como resultado de um processo de aprendizado sobre a materialidade – o que significa, em última instância, que me importava menos sua funcionalidade como artesanatos utilitários ou um destino decorativo, quiçá o uso como escultura artística. Por isso, no início de minhas investigações dentro da academia, voltei-me para o objeto de forma a desenvolver uma poética que se alinhasse com as questões contemporâneas da arte. Assim, comecei a desenvolver peças que abstraíam a funcionalidade e, ao mesmo tempo, me permitiam seguir no aprofundamento das investigações da materialidade. Apoiei-me, inicialmente, em leituras que se voltavam para a abertura do objeto, como nos procedimentos artísticos brasileiros da década de 1960, que me serviram para empreender a pesquisa poética já tendo como referência a ideia de uma possível articulação com novas maneiras de fazer – não tradicionais. Percebo minha trajetória artística como um percurso na construção de uma heterotopia. Esta heterotopia é lugar de encontro de poéticas, subjetividades e ensino, aplicados através da experiência corporal, pois considero que o corpo é o lugar por excelência da expressividade de nossa época no que se refere à alteridade, o Outro, e nossa solidão interna. É a arte que funde “solidão essencial” e vida no mundo: o humano, “demasiado humano”. Este percurso é minha arte encarnada, que se faz para a outreidade, a partir da pesquisa da arte atual e suas potencialidades para o contato com outras artes, outras épocas e o mundo fragmentário pós-moderno. Venho de graduação e mestrado em Artes Visuais e doutorado em Artes, tendo o corpo como tema central de minhas pesquisas e atuações poéticas. Parto, fundamentalmente, de uma ideia de corpo como base existencial, dos conceitos articulados de corporeidade e presença e me apoio nas práticas da estética relacional, tendo consolidado um percurso onde defini um sistema pessoal de arte participativa com ênfase em processos colaborativos com não-artistas. A base deste sistema de arte é multidisciplinar, de caráter pedagógico e com estruturas não-formais de ensino - o que viabilizou experiências de troca com diversas linguagens e profissionais de áreas variadas. Considerando tanto a história recente da arte quanto as temáticas e inquietações que vêm tensionando a relação entre suas três principais instâncias (artista, obra e espectador), e não perdendo de vista as diversas interconexões que o momento sociocultural oferece, pensar e explorar o lugar da arte e o lugar do artista nos espaços ainda possíveis constitui ponto fundamental das ações, ou práticas, e reflexões teóricas a que me dedico. Parto da investigação dos conceitos supracitados e tenho como dispositivo articulador dos procedimentos o conceito de corpo, sua influência na subjetividade e identidade dos envolvidos e as possibilidades representacionais advindas desta investigação. Minha produção poética emerge do acolhimento do corpo que é casa, escombro, crise, vestígio, intensidade, base existencial, presença, pessoa – fora. Nunca à guisa de recorte conceitual, comodismo dos que creem que o corpo pode ser um corpo “como”. Os limites do corpo, na atualidade, não podem ser dados por uma ideia de passividade ou inércia, típicas dos objetos. O corpo tem se convertido na referência onde muitas transformações são instauradas, sendo, ao mesmo tempo, o veículo pelo qual tais ações são realizadas e o lugar onde estas acontecem. Para citar alguns exemplos, relacionam-se as intervenções feitas por procedimentos de cirurgia plástica voltados exclusivamente para reconfigurações baseadas em determinados critérios de beleza, ou ainda a desconstrução do corpo frente às tecnologias cibernéticas e as práticas virtuais nos eventos de tele-presença. Estas, entre outras possibilidades, constituem um panorama que reclama a construção de identidades, ou de pessoas, a partir do corpo. Trata-se da necessidade, instaurada pelo contexto, de um recorte dos limites da pessoa, dentro da coletividade, que parta do corpo individualizado. Faz-se, portanto necessária, uma abordagem do corpo como produtor de sentido e de presença, dotado de agência própria e resultante do contexto social. Saio do acúmulo das historicidades para dobrar e desdobrar falas oriundas da produção de sentido e afetos, em desterritorializações onde o processo criativo gera outros espaços em tempos outros. Discuto corpo, pessoa e espaço inseridos em contexto de sistema de arte, problematizando o objeto para repensar a relação constituída com ele nos procedimentos artísticos. Diante da crise da interpretação que, acredito, a contemporaneidade vive em relação à arte, trilhei um caminhar na direção de uma arte com vocação para o estranhamento que, quando produz um objeto, este tende a produzir sufocamento em lugar de contribuir para a existência – como tradicionalmente deveria funcionar. Julgo imprescindível assumir este caráter odradekiano dos objetos de arte atuais para lograr uma possível metodologia de criação voltada a um perfil de fruidor que está muito mais em contato com esta arte problematizada, ou seja, a arte contemporânea, geradora de crise, do que com a arte do passado - alguém conectado com a mídia, com o enfoque nas Bienais e com a arte contemporânea nas ruas. Digo possível metodologia, com ênfase no possível, por acreditar que já não nos encontremos em tempos de formar verdades absolutas e teorias concretas. Como advoga Viveiros de Castro, ao defender que a antropologia só poderá permanecer como área de conhecimento se reinventando como uma metodologia de “tradução provisória” acredito que a arte e metodologias de ensino de arte caminhem na mesma via. O que faz de meus processos criativos, antes de um conjunto de respostas a problemas formais herméticos, um posicionamento heterotópico onde a experiência se escreve sobre o insustentável – já que se insere no contexto atual, onde os procedimentos de arte constituem rebeldia em uma presença que não se dá a revelar e questionam a si próprios, peculiarmente ocultos, desde a ordem do diferente. Voltei-me para a necessidade de ampliar e aprofundar as especificidades que ocorrem em práticas de arte participativa, onde os papéis do artista, obra e público não se encontram mais tão delimitados e separados, dadas as mudanças que os próprios espaços de atuação destes três principais agentes têm sofrido. Os sistemas de legitimação da arte já estabelecidos – como os espaços de produção, ateliês e oficinas, espaços de circulação e exposição, tais como museus, galerias e outros eventos da área vem recebendo reforços alternativos para abrigar o contexto onde surgem os projetos de arte desta natureza. Inicialmente não possuindo uma relação direta com as formas tradicionais de arte, estes projetos propõem experiências de diálogo e contaminação entre os envolvidos e acabam tramando relações importantes dentro deste campo de arte. Nesta qualidade de projetos o ponto central a ser explorado é a investigação de como o papel do artista é influenciado por outras áreas de conhecimento, assim como o do não-artista, que se torna um coautor das proposições, em processos onde importam menos os produtos resultantes e mais as metodologias adotadas, ou como a relação entre artistas e não-artistas é estabelecida. Esse processo transforma ou, melhor dizendo, afeta as práticas artísticas e os cotidianos implicados em diversos contextos. Os procedimentos aplicados, no campo de minha pesquisa criativa, visaram a utilização de métodos baseados na ação direta, ou seja, provocar alterações/descontinuidades no uso do espaço, viabilizando ambientes de interação, troca e contaminação entre os envolvidos, levando em consideração as questões territoriais imbricadas nos contextos. Tencionei a proposição de experiências de diálogo e contaminação, através de estratégias de nivelamento relacional e exercícios de alteridade, entre artistas e não-artistas, que não pressupunham necessariamente produtos artísticos mas, sim, devires e encontros que constituíssem uma cartografia de acontecimentos. Transitei e desenvolvi projetos de arte colaborativa em espaços ocupados por pessoas em vulnerabilidade social (ocupações de moradia, espaços voltados à Saúde Pública como uma vila psiquiátrica), comunidades tradicionais, cidades muito pequenas e antigas do território nacional, bibliotecas e rádios comunitárias e locais de ensino não-formal como ONGs. Todas estas experiências acontecem a partir da arte, constituem-se como processos colaborativos em arte, com diversos graus de interação, transitando muitas vezes com outras áreas de conhecimento e em perspectiva interdisciplinar. Meu campo de pesquisa para criação, desde a graduação, foi muito mais efetivo em procedimentos colaborativos e experiências de ensino não-formal. Se por um lado construo o lugar de professora, acredito que também é latente a indiscernibilidade entre artista e formadora/professora. E haverá sempre o vestígio da estudante, pois na formação da poética não há completude – há mudanças de intensidades, movimentos de vida e morte. A artista será sempre pesquisadora e, com isto, sempre experimentará o lugar de aprendiz, o lugar de receptora da transmissão. A variação dos papéis, como as intensidades dos corpos, me serve de força motriz. Portanto, minha pesquisa acadêmica teve como direção aprofundar a discussão acerca dos lugares onde a arte pode se instalar atualmente, de como o artista pode atuar quando da superação do paradigma da autonomia da arte em detrimento de procedimentos engajados e, finalmente, das formas de multidisciplinaridade que abrem caminhos outros para a atuação da própria artista, também pesquisadora e professora, assumindo um lugar de fala que parte destes papéis indissociáveis. Como estudante dedicada ao fazer artístico posso dizer que esta zona de indiscernibilidade entre materialidade e poética, no processo de construção de poética e pesquisa em arte, é mais um vestígio, um mistério que se mantém sem ser passível de visualização, que uma concretude solucionável através do racional. O encantamento, que garante a manutenção da pesquisa e o desejo, que desdobra a poética, não são localizáveis assim, facilmente, ou dizíveis. Apenas estão aí, no espaço que criam e para onde nos voltamos para nos abrigarmos com nossas criações. Na leitura histórica das atividades artísticas dos anos 1960 estas são, geralmente, apresentadas como procedimentos que visavam desestetizar a arte, dando ênfase ao processual e entendendo a arte como procedimento conceitual. Há, neste pensamento, o costumeiro indicativo do pressuposto dualista de que o procedimento artístico deve ser analisado desde um ponto de vista semiológico, com referência à linguagem, ou desde um ponto de vista fenomenológico, com referência à experiência (tendo o conceito de “desestetização” ligação direta com a estrutura semiológica de análise da obra, enquanto a ideia de “processual” se liga à experiência fenomenológica). Esta tendência dicotômica, não restrita ao campo da arte, que opõe linguagem e experiência, é apontada pelo antropólogo Thomas Csordas ao propor uma nova perspectiva para a compreensão dos processos que envolvem o corpo, que partiria de uma premissa mais dialógica e menos excludente. Minha poética vai ao encontro do pensamento de Csordas para quem o conceito de corpo constitui-se tanto pela multiplicidade quanto pela multidisciplinaridade e, mesmo tratado por uma área específica de conhecimento, demanda um acercamento plural, resultante de contaminações. Estas contaminações são por mim pretendidas para chegar às relações entre artistas, arte e público fruidor, através dos procedimentos artísticos que envolvem o corpo, a corporalidade e, finalmente, a pessoa. Articulam-se desde as primeiras experiências participativas da geração de Amélia Toledo e Lygia Clark, entre outrxs, até as performances, objetificações fugidias e propostas de mediação atuais, nos diferentes espaços destinados à arte através de suas metodologias outras, de indiscernibilidade entre educação/ensino de arte e processo poético relacional, vivenciando percursos, como forma de demonstrar sua viabilidade e concretude como uma pedagogia de libertação. Admitindo que a arte contemporânea problematiza o encontro com sua linguagem, acredito que autores e artistas que me inspiram viabilizam uma relação fecunda com esta arte e a construção de minha poética me leva a crer que é necessário que coloquemos de lado os tradicionais hábitos de ver arte, ou seja, de esperar dela uma janela para a realidade que propiciaria soluções para o mundo. Procuro articular com minha produção a fundamentação de uma ética que se aplica no percurso metodológico, tanto de criação quanto de ensino, voltada para a Diferença, oposta ao totalitarismo, através da potencialidade que a arte apresenta por ser impossibilidade de leitura - que funciona como afirmação das diferenças como elemento de criação profícuo. As artistas que me inspiram, e suas proposições, indicam a possibilidade da não-possibilidade (de leitura, apreensão, compreensão e categorização totalizantes) como fonte de aprendizagem que é pedagogia libertadora e referência criativa. Com os procedimentos relacionais desdobrados em sistemas de arte colaborativa e arte pública procurei demonstrar, durante meu percurso poético, que esta “arte que não tem cara de arte”, que não prevê resultados, enriquece a vida porque não nos mostra saídas, mas problematiza nossa relação com a realidade, apresenta mais perguntas que respostas e, assim, fomenta poéticas coletivas e modos de estar juntos. Não significa sugerir que a arte nada diz, mas é uma busca por demonstrar que o oferecido por ela não é mais, em função do mais arraigado conjunto de hábitos que temos, ou seja, a leitura totalizadora, o que esperamos dela e, sim, uma arte que se constitui de ruído, vestígio e obscuridade, como é o Outro que temos diante de nós. Assim, a arte atual desmonta nossa pretensão do saber que, segundo Emmanuel Lévinas, se impõe mediante os mecanismos de violência pós Holocausto, e a pretensão de pensarmos que a arte está sempre disponível a vir à luz. E a metáfora da luminosidade, nesta pedagogia proposta, cai finalmente por terra, pois a profundidade se dá, justamente, na obscuridade – como prefere Blanchot. A professora se vê emancipada da obrigação de iluminar, remover da obscuridade. O vestígio, a obscuridade da arte atual, constituem sua radicalidade como modo de estar no mundo, nessa resistência que não se dá na totalidade e indica seu modo de ser para um lugar tão demasiado humano que não abarcamos como saber. Ou, um saber que se realiza diferentemente de como entendemos, até então, como saber – um percurso para a aprendizagem de um saber outro. O corpo é tomado em minha produção como fundação de espaço de liberdade, que muitas vezes se faz por excesso de fala, outras vezes por murmúrio e indefinição. É, simultaneamente, a existência cotidiana e os desejos interiores atuando na inseparabilidade de forma e conteúdo. Através do corpo instala-se um espaço onde a imagem poética rompe com a Totalidade que tudo simplifica, para instaurar a diferença e a multiplicidade, pois é o corpo o lugar dos traumas de nossa sociedade – marcada pela misoginia do patriarcado, pelas violências racistas das guerras, dos preconceitos velados e não velados, do machismo, da pobreza, da fome, dos êxodos. Pretendo, demonstrando as formas de ver que constituem os já citados velhos hábitos e, principalmente, destacando possibilidades outras para este ver, trazer para a heterotopia que construo como trajetória artística, o entendimento que esta arte que se apresenta hoje nos oferece uma possibilidade diferenciada de “ver” o mundo e, consequentemente, de ver o espaço da ética e da política. O grande desafio, dentro desta heterotopia, é que este ver se dá, fundamentalmente, nas construções feitas por nós artistas, por filósofos, escritores e pensadores das mais diversas áreas de conhecimento, pela via do inominável. Esta arte é, portanto, um espaço de confronto, profanação, vestígio e, também encontro, mas antes de tudo, um espaço que restitui as coisas do mundo ao livre uso das pessoas na ambivalência (ou provisoriedade). O espaço poético, em amplo entendimento, confere uma experiência de plena humanidade, pois viabiliza que vejamos o mundo na sua multiplicidade de modos de aparecer, ou seja, vemos com o corpo todo. A arte constitui aprendizagem porque ensina-nos que, tal qual este espaço poético, o Outro não pode ser delimitado pela interpretação, pelas regras e por uma ética elaboradas a priori.
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